Sobre engajamento e corpos no espaço escolar

Propositalmente, deixei para ser a última a publicar meu post com as reflexões sobre o nosso projeto de gamificação. Eu queria ler as reflexões da equipe antes, ruminar sobre o que aconteceu, distanciar um pouco no tempo de forma a permitir um certo desapego emocional. Não sei se deu muito certo, mas vamos lá.

Ficou muito presente para a equipe nossa dificuldade em inserir os estudantes na construção do projeto. Utilizamos a lógica “de cima para baixo”, iniciando o diálogo com a gestão da escola, depois com os professores e por fim apresentando uma proposta “pronta” para os jovens. O distanciamento físico exigido pela pandemia pareceu estabelecer um fosso não somente entre nossos corpos, mas também em como acessar e compartilhar ideias diretamente com os alunos. A medida que íamos percebendo essa dificuldade tentávamos novas estratégias. Primeiro, percebemos a baixa resposta aos desafios no Google Sala de Aula, depois a escassa participação nos encontros síncronos até chegar nas raras respostas em mensagens de Whatsapp. Enfim, por mais que as tecnologias tenham sido pensadas para promover interatividade, elas dependem diretamente do interesse dos envolvidos. O processo educativo é isso: uma ação de interação entre pessoas.

É aqui que eu levanto a minha hipótese: será que um processo de gamificação pode ser realizado totalmente online, sem contar com a interação dos corpos? Lembrei dos outros projetos realizados pelo multiHlab antes da pandemia. As oficinas do Teatro como Método, Oficinas de Produção Audiovisual, PIBIC Ensino Médio. Enfim, em todos eles a equipe estava imersa no ambiente da escola, trocando energias e vibrações com todos os envolvidos, buscando empolgar através da nossa própria empolgação. É contagiante, é estimulante, é coletivo e agregador. Pelas reflexões de cada integrante da equipe, é possível perceber o quanto nós estávamos envolvidos e isso foi até um elemento agregador da nossa equipe durante o isolamento. Mas não conseguimos transmitir essa mesma energia para os alunos.

Eu acreditava, no início do projeto, que a narrativa do jogo e o clima de desafio pudesse estimular os alunos a criarem entre si uma comunicação “paralela”, tanto entre cada guarnição (para acompanharem a execução dos desafios) quanto entre turmas, gerando um sentimento de pertencimento à escola ao continuar tirando onda com a galera, assim como acontece nos jogos escolares. Mas ao não estarem no mesmo espaço ao mesmo tempo (todos na escola), ficou evidente as limitações do virtual. Isso foi percebido inclusive pelos professores, que declararam acreditar que o jogo seria muito melhor se fosse presencial e que seria interessante retomá-lo quando do retorno das aulas presenciais de forma segura (com a população vacinada). 

Fica então a lição: quando pensamos em engajamento, felizmente as relações humanas ainda estão bastante ligadas aos corpos, a nossa troca de energias, sentir-se parte de um grupo, que brinca junto e assim cresce no convívio e nas trocas. Por isso a escola é um espaço de socialização, não apenas de transmissão de conhecimento considerado válido. 

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