Qual a sua motivação para permanecer jogando?

Nesse clima de fechamento de projeto, no resgate da memória da experiência do desenvolvimento do jogo “O Retorno de Cân”, imediatamente tenho a lembrança inicial da energia e emoção da equipe multiHlab. Tínhamos mais uma missão e estávamos motivados, cheios de adrenalina. As etapas iniciais do projeto – o surgimento da ideia, as leituras, a construção da proposta, o convite aos professores, o primeiro encontro online com os jogadores, a empolgação de encenar uma personagem, o envolvimento inicial dos professores – tudo nos conduziu a sentimentos positivos de trabalho coletivo enfrentando a morgação. Em meio à experiência de resiliência social diante da crise mundial de depressão e tristeza que se gerou devido ao isolamento social e quarentena em decorrência da pandemia, o convite para criar este projeto nasce da necessidade de colaboração para tentar superarmos juntos esse momento, mas sobretudo, para dar novos sentidos ao nosso trabalho e vida.

Estive mais engajada e disponível no início das atividades e planejamento do projeto. Por estar envolvida em outras demandas tive pouca participação, mas permaneci ativa e ciente do desenvolvimento do trabalho da equipe, pensando estratégias, dando suporte quando necessário. Tenho o hábito de fazer anotações reflexivas para poder analisar nossas ações, e em uma reflexão escrevi:

“Demos início a divulgação do projeto gamificação em parceria com a escola Cândido Duarte. Está sendo empolgante cada detalhe da criação do projeto, na interação da equipe, da equipe com os professores, em tudo”.

A equipe se desdobrou para elaborar questões, criar atividades, artes e narrativas, as reuniões do hlab estimulavam a criatividade inclusive para outros trabalhos em paralelo. Foi assim que eu me mantive “bem” em isolamento, e aprendendo a ressignificar os dias de trabalho remoto em frente a tela do computador. Inicialmente, o trabalho nos afastou do medo e da depressão provocada pela pandemia. 

O fato é que em algum momento tive a sensação de que a pandemia afetou a todos de alguma forma. É como se o efeito da adrenalina estivesse passando. Eu me senti cansada. Senti a necessidade de desistir do jogo em alguns momentos. Mas o que nos motivou e nos motiva a permanecer jogando? Requer uma resposta individual. Acredito que pra mim seja continuar aprendendo com cada etapa e problema superados.

Em algum momento o “Morgan” afetou à todos, mas de uma forma mais sensível e diferente afetou aos jogadores. Tentamos com nossos recursos incentivar e colaborar com os professores de modo a alcançar os alunos para tentar fortalecer o sentimento de pertencimento à escola. Nosso ponto de partida para pensar as estratégias foram as dificuldades encontradas pelos professores para estimular os alunos a participarem das aulas online, quando deveríamos ter pensado também em como os alunos estavam sobrevivendo às atuais mudanças. Essa compreensão poderia ter sido realizada a partir de um diálogo para diagnosticar os problemas aos quais os alunos estavam enfrentando e que poderiam ser trabalhados no jogo. Mantivemos nosso foco em um problema pedagógico. Criamos uma estrutura e metodologia complexa de jogo. Hoje com as dificuldades encontradas para conclui-lo nos damos conta de que ao trabalhar com um público tão jovem, considerando sobretudo o estado de mudança social em que vivemos,  é sempre importante dialogar com eles no planejamento da proposta.

O processo de criação e implementação do jogo foi diferente de outros projetos pedagógicos os quais o laboratório já desenvolveu. Trago o exemplo da Oficina de Produção Audiovisual que produzimos para os alunos do ensino médio da EREM Cândido Duarte, na qual a abordagem concentrou-se essencialmente em construir esse movimento dialógico horizontal com o aluno para buscar metodologias e caminhos possíveis para o trabalho.  Foi uma experiência que deu muito certo. Na reflexão da ação, ao refletir sobre os elementos que poderiam ter melhorado o desempenho dos alunos no jogo, retorno a abordagem do diálogo horizontal no planejamento progressivo com o aluno, na perspectiva de identificar problemas que poderiam impedir o andamento do projeto para criar estratégias diferentes, mudando a organicidade da metodologia. Nesse sentido, um diálogo poderia ter estimulado espaços de comunicação e exposição de problemas possíveis de serem abordados dentro do jogo, afinal a nossa narrativa envolve abordar os problemas provocados pela pandemia.

Foi  uma experiência rica de aprendizado novo, bem como fortaleceu o conhecimento que já existia. Os pontos positivos são: não desistimos em nenhum momento; aprendemos a refletir com mais frequência sobre nossas ações; e fortalecemos as relações entre a comunidade escolar e o laboratório.

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