Muitos esforços, várias lições

A execução do projeto O Retorno de Cân foi um caminho de altos e baixos. Para contextualizar: a ideia era incentivar os alunos – que já estavam desgastados, devido às consequências sociais ocasionadas pela pandemia do vírus COVID-19 e as consequentes aulas remotas – ao estudo; entretanto, isso logo se provara mais difícil que o esperado.

 

A princípio, tentamos integrar os professores e suas respectivas disciplinas na gamificação, de forma que o game e o conteúdo escolar permanecessem entrelaçados. Porém, falhamos ao não dialogar com os alunos primeiro e isso acarretou no desestímulo da maioria em participar do jogo. Embora ainda tivéssemos uma boa quantidade de alunos ativos, estes pouco a pouco foram se dispersando. Tínhamos que tomar uma atitude. 

 

Decidimos por mudar radicalmente nossa abordagem. Conversamos diretamente com os alunos e descobrimos que, apesar de não terem aulas presenciais, tinham muitas tarefas das disciplinas somadas a tarefas domésticas que lhes foram atribuídas durante o período da pandemia, e, portanto, se sentiam sobrecarregados em ter mais uma “obrigação” a cumprir. Eis a fonte do desestímulo, que poderia ter sido previamente identificada com uma pesquisa direta ao nosso público-alvo. Esse foi o primeiro aprendizado.

 

Com essas informações, modificamos também todo o ritmo e tematização do game, mas mantendo o mesmo conteúdo narrativo e garantindo um fundo pedagógico. A inovação teve uma boa resposta, conseguimos restituir parte do que perdemos anteriormente e voltamos a trabalhar nosso brainstorm.

 

Contudo, acabamos por esbarrar num choque da realidade: esses jovens já estavam tendo problemas para estudar na situação presente (que não é nada favorável), como podemos esperar que tenham motivação para embarcar nessa aventura enquanto mantêm todos os seus novos afazeres em dia? Ou melhor: será que temos o direito de expô-los a esse dilema? Conversamos com professores da escola EREM Cândido Duarte e foi decidido que o conteúdo tratado no jogo não mais seria vinculado às disciplinas curriculares como português, matemática, etc mas, em seu lugar, seriam usados assuntos transversais que também são dados pela própria escola, como:Ddireitos Humanos, sustentabilidade, meio ambiente e outros. Ficamos livres para realizá-lo a nosso gosto, mas o problema continuava aí: será que estaríamos de fato ajudando ou atrapalhando os alunos – neste momento – com O Retorno de Cân? Esse foi o segundo aprendizado: às vezes existe um tempo e um lugar para que as coisas sejam feitas.

 

Na época houve também muito tumulto e incertezas sobre as aulas e a relação aluno-escola devido as greves, manifestos, discordâncias entre o sindicato e o governo estadual , entre outros acontecimentos que deixaram todos inseguros (alunos, pais, professores, etc). Este foi o terceiro aprendizado: por mais que nos esforcemos, não depende apenas de nós; vivemos em uma sociedade, e isso significa que somos parte de um organismo muito maior – organismo este, que, no momento, se encontra literalmente doente.

 

Por fim, acho que a maior lição que tiramos daqui é que fizemos o melhor que podíamos fazer, mas, ainda que não tenha seguido adiante, nada impede que façamos melhor num futuro próximo (quem sabe, em condições melhores). Todo o esforço realizado está cravado em nossa equipe e não será esquecido.

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