Estou dando aula para uma tela que não me responde

Começamos hoje a série de postagens Diário de uma Gamificação, que registrará o novo projeto de intervenção pedagógica com uso das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação em parceria do multiHlab e a EREM Prof. Cândido Duarte. Você vai poder acompanhar aqui pelo blog o desenvolvimento de todo o projeto, desde a identificação do problema, passando pela busca por soluções, a construção das ideias, até as dificuldades ao longo do caminho. Enfim, a equipe do laboratório vai abrir mente e coração para que você tenha acesso a todo o processo. E a gente começa agora, resgatando como o projeto nasceu. 

Em 20 de março de 2020 foi iniciado em Recife o período de quarentena como medida preventiva devido a pandemia causada pela Covid-19. Atividades presenciais foram suspensas, mantendo crianças, jovens e adultos em isolamento social. No princípio, não tínhamos ideia que a quarentena se estenderia tanto. Acreditamos que seria apenas esperar alguns dias em casa, fazer as atividades domésticas, manter alguma rotina de trabalho remoto, e logo estaríamos de volta ao escritório, à escola, à rua. Mas não foi o que aconteceu. Estamos em agosto e ainda precisamos permanecer o máximo possível em casa. 

As escolas não retomaram as atividades presenciais. Agora, é possível que o ensino remoto, ou híbrido, seja mantido até o final do ano. A Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco (SEE/PE) mantém atividades de ensino disponibilizando vídeo-aulas transmitidas ao vivo por canais públicos de televisão aberta e armazenadas em canal oficial no Youtube. São disponibilizados conteúdos no Portal Educa PE, incluindo apostilas e roteiros para estudos em casa. Os alunos receberam os livros didáticos e um cartão com auxílio alimentação. 

Os projetos planejados pela equipe do multiHlab para 2020 aconteceriam no formato presencial, no contato direto com professores das Humanidades na escola básica e alunos do ensino médio. Oficinas de produção audiovisual, cursos sobre Investigação Científica na escola, disciplina eletiva de Linguagens Digitais para o ensino de Humanidades na escola, pesquisas de campo em conjunto com a equipe do PIBIC Ensino Médio. Com a exigência do isolamento social, desenvolvemos novas ideias, iniciando a série de postagens neste blog – as Pinktips – e a linha de vídeos de divulgação científica Pergunta ao Prof. Mas a gente queria voltar a trabalhar em conjunto com nossa escola parceira – EREM Prof. Cândido Duarte. 

Motivados pelas discussões e atividades realizadas em curso remoto de Design Thinking, realizamos entrevistas por telefone com a assistente de direção da escola parceira – Jeane Lima, com a professora de português, Mônia Cavalcanti; e com alunos da escola integrantes do projeto PIBIC EM CNPq/Fundaj. O interesse foi identificar como a comunidade escolar estava se adaptando ao ensino remoto, quais as principais dificuldades e se poderíamos colaborar na busca por soluções. A partir destas longas e sinceras conversas o cenário foi se desenhando: o esforço da gestão em desenvolver canais de comunicação com responsáveis, alunos e professores; a adaptação dos professores para manter o vínculo com suas turmas; a desmotivação dos alunos para construir uma rotina de estudos. 

A partir de 15 de julho, foram disponibilizados para alunos e professores da Rede Estadual de Ensino login e senha para acesso institucional ao G Suite, solução Google para atividades remotas, incluindo salas de aulas virtuais (Google Sala de Aula) e ambiente para encontros simultâneos virtuais (Google Meet). Começa uma nova fase de adaptação com a mobilização da escola para o desenvolvimento de calendário de encontros simultâneos pelo Meet e planejamento de atividades para o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). O esforço é grande, mas os resultados ainda são tímidos. Muitos alunos não comparecem aos encontros simultâneos. Os que estão conectados, não abrem suas câmeras ou microfones para participar da aula e também não entregam as tarefas propostas pelos professores. No máximo, escrevem algo no chat. Assim, é com a fala da Profa. Mônia que resumimos o que estava acontecendo: “Estou dando aula para uma tela que não me responde”. 

A entrevista com os alunos revelou outros olhares sobre o problema. Eles não relataram dificuldades de acesso à internet, reforçando informação coletada pela gestão da escola ao ligar para todos os responsáveis para levantamento das dificuldades individuais. Os depoimentos trouxeram a questão da organização de uma rotina de estudos em casa como um dos principais obstáculos. Como alunos do ensino integral, tinham seus horários e espaços organizados pelo escola, com um cronograma rígido de aulas, intervalos, estudos dirigidos, prazos para entrega dos trabalhos, realização de provas, chamada para garantir a presença. Agora, essas regras não estão mais vigentes. Quais são as novas regras? O que preciso fazer? Qual será o meu futuro? Eu já perdi o ano? Sou aluno do 3º ano e assim não vou conseguir ter uma boa nota no ENEM para entrar numa faculdade, então é melhor eu repetir o ano? Ou melhor eu desistir e começar a trabalhar como entregador de aplicativo? 

Uma consequência do afastamento dos alunos das atividades escolares realizadas por seus professores e com seus colegas de turma seria a desorientação e a diminuição do seu sentimento de pertencimento à comunidade escolar, podendo levar ao desestímulo e até à evasão escolar. Identificamos, assim, uma parte do problema: precisamos estabelecer um novo sistema de regras e elas precisam nos motivar a continuar trabalhando juntos.

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